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Brasil - Um ambiente sujo, sem ventilação, com um calor insuportável. Neste lugar, os homens conviviam com alimentos estragados e corriam o risco constante de contrair doenças. Esses e outros percalços eram enfrentados pelos galerianos, condenados a fazer trabalhos forçados em galés. Nessas embarcações movidas a remo, amplamente utilizadas no Mar Mediterrâneo desde a Antiguidade, muitos homens foram submetidos a grandes privações e dificuldades. Na base das chicotadas, homens funcionavam como motor nas galés. Neste tormento, havia espaço para escravos e também pessoas condenadas pela inquisição.


As galés estavam entre as principais embarcações de guerra europeias até o desenvolvimento da navegação, a partir do século XVI. Elas possuíam velas que, apesar de serem muito rudimentares, auxiliavam em sua movimentação. Mas, para que ganhassem os mares, era necessário recorrer à força de cerca de 250 homens, recrutados de diversas formas. Eles podiam ser escravos condenados pela Justiça, que trocavam suas penas por trabalhos temporários nas galés, ou voluntários em busca de salário. Com o passar do tempo, esse recrutamento passou a priorizar os cativos e aqueles que cumpriam pena, pois não era necessário pagar pelos seus serviços. Em Portugal, os prisioneiros eram simplesmente retirados dos cárceres e acorrentados às galés durante alguns combates, como na batalha de Arzila, travada no norte da África em 1471.
A partir do século XVI, muitos portugueses foram condenados pela Inquisição a servir nas galés por períodos que variavam de três a dez anos. Este também foi o destino de vários homens nascidos no Brasil. O Tribunal do Santo Ofício, instituído em Portugal em 1536, se valeu desse tipo de pena para castigar quem não seguisse os padrões morais e doutrinários por ele estipulados. Além dos tribunais eclesiásticos, as leis do reino também puniam delitos relacionados à fé. Entre os criminosos na esfera civil que foram condenados ao degredo nas galés havia muitos que “blasfemavam de Deus ou dos Santos”.
Essa norma está descrita nas Ordenações Filipinas de 1603, um conjunto de leis do direito penal em Portugal. Segundo esta regra, os indivíduos que blasfemassem mais de uma vez contra os santos ou contra Deus pagariam a soma de quatro mil-réis em dinheiro e seriam degredados às galés durante um ano. Geralmente essas pessoas tinham menor condição social, como os “peões”, ou seja, os plebeus. A Inquisição determinava que diversos delitos poderiam levar o indivíduo a ser condenado às galés. Quem fizesse uma confissão à Inquisição, jurando falar a verdade perante as autoridades inquisitoriais, e posteriormente dissesse que havia mentido sobre as declarações feitas era inserido no Regimento do Santo Ofício de 1640. O sujeito seria punido se afirmasse que não foi responsável pelo delito que o levou a confessar, mesmo depois de liberado. Como castigo, ele seria açoitado e degredado por um período que variava de cinco a oito anos. Os blasfemos, os falsos padres, os bígamos e os sodomitas, entre outros que tivessem desvios de conduta de acordo com a Inquisição, sofreriam condenações semelhantes.
Em geral, quem era enviado para trabalhar nas galés vivia pouco, devido à ausência de refeições saudáveis, à labuta incessante sem descanso e às agressões físicas sofridas – chicotadas – pelo não cumprimento das ordens dadas. Os galerianos também usavam calcetas – argolas de ferro com corrente presas à perna –, coisa que só aumentava o sofrimento para quem fazia trabalhos forçados. O cansaço e as dificuldades resultantes de tanta pressão provocavam o que era considerada por muitos uma morte lenta e sofrida.
As viagens feitas pelas tripulações eram relativamente curtas: duravam, em média, três meses. Os destinos mais frequentes eram as águas próximas ao porto de Lisboa, o norte da África e o Oriente, onde os portugueses tinham colônias, como na Índia.Isso acontecia por conta de limitações que os tripulantes dessas embarcações experimentavam. Uma delas se referia ao transporte dos mantimentos. A água e a comida, por exemplo, viajavam no mesmo ambiente que os sentenciados ocupavam durante a sua estadia no mar, o que fazia com que o risco de os alimentos estragarem fosse enorme. A alimentação dada aos galerianos variava entre biscoitos duros, carne salgada, ervilha e lentilha, todos os itens distribuídos em pequenas porções.
Eram poucos os galerianos que saíam sem nenhuma sequela desses trabalhos forçados. Na maioria dos casos, eles contraíam doenças, como úlcera, ficavam aleijados, perdiam a consciência ou morriam nas galés. Das penalidades aplicadas na época, o degredo para as galés era a mais severa, muito mais rigorosa do que o desterro para o Brasil ou para regiões da África. Só não era considerada pior do que a morte na fogueira.
Dos quatro cantos do atual território brasileiro, havia colonos que partiram rumo à metrópole portuguesa para servir nas galés. Entre muitos exemplos está o de Manuel de Oliveira, natural de Olinda, em Pernambuco, que foi preso pela Inquisição no dia 5 de julho de 1594, acusado de heresia e condenado a uma pena de três anos. Já no século XVIII, o marinheiro Bernardo José Ferraz, de Paranaguá, bispado de São Paulo, foi detido e processado por bigamia. Acabou servindo numa galé durante cinco anos. Além desses, outros portugueses que viviam nas capitanias de Maranhão, Bahia, Rio de Janeiro, Minas Gerais e Grão-Pará, entre outras, tiveram esse mesmo destino.
A trajetória do colono Manuel Lourenço Flores é uma das mais curiosas. Ele vivia na freguesia de São João de Itaboraí, bispado do Rio de Janeiro, mas, antes disso, viveu boa parte do tempo em Portugal, onde se casou com Maria Pimentel. Depois de chegar ao Brasil, em meados do século XVIII, e tendo deixado sua mulher em Portugal, ele resolveu se casar novamente, o que fazia dele um bígamo legítimo. Mas sua ousadia e seu desrespeito aos sacramentos cristãos foram ainda mais longe. Depois de contrair matrimônio com Maria Vieira, ele não sossegou e ainda se casou uma terceira vez, com Maria das Neves, a quarta com Maria da Conceição, a quinta com Rosa Maria da Conceição e a sexta com Ana de Sousa. Manuel Flores era o que poderia se chamar de um casamenteiro incorrigível, e por isso foi acusado pela Inquisição de poligamia. Processado, acabou sendo condenado a trabalhar nas galés durante dez anos. Em 1755, enquanto ainda cumpria sua pena, e aproveitando um terremoto que abalou Portugal na ocasião, ele tentou fugir da prisão, mas não teve sucesso.
Embora esse tipo de punição fosse comum e aceito pelas sociedades portuguesa e colonial, o número de galerianos começou a diminuir com a queda na construção de embarcações a remo, causada pelo avanço nas técnicas de navegação e pelo surgimento dos navios a vapor. O contingente de degredados passou a ser utilizado nas obras públicas. Afinal, recrutar condenados para esse trabalho representava um gasto a menos para a Coroa.

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