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DF - Logo que foi procurado para esta reportagem, o catarinense Alexandre Danielli deu uma pista de como é o seu dia a dia, pedindo mais um tempinho para responder algumas perguntas por e-mail,: “Desculpe, estou na correria, problemas com Iran”.  Assim, escrevendo Irã com N, ele dá mais uma pista: a de quem está íntimo da língua inglesa. O motivo é simples. Ele mora nos Estados Unidos há nove anos e integra a United States Marine Corps, o Corpo de Fuzileiros Navais dos EUA desde 2008.


  • Hoje, aos 30 anos, no Pelotão de Engenheiros de Camp Pendleton, em San Diego, California, Danielli já saiu em missão para mais de dez países. Entre eles estão Afeganistão, Quirguistão  e Paquistão. Mas de vez em quando ele pode matar a saudade da língua portuguesa com marines conterrâneos. “Tenho contato com outros cinco brasileiros no Corpo de Fuzileiros Navais”, conta o militar.
    Segundo o historiador e pesquisador do Iphan Adler Homero Fonseca de Castro, especialista em armamento militar, o salário e as vantagens oferecidas aos militares são um bom atrativo para estrangeiros. “O soldado raso, posto mais baixo da hierarquia, recebe 1.274 dólares, o que é ligeiramente superior ao salário mínimo americano, mas deve-se pensar nos benefícios, principalmente roupa, comida, alojamento e alguns confortos subsidiados. Se você serve durante oito anos, por exemplo, tem a faculdade paga. Os veteranos também têm direito a hospital gratuito”, diz Castro. Além disso, nos EUA, o veterano recebe, depois de seis anos de serviço, o greencard – visto permanente de imigração – e tem acesso a uma "via expressa" para obter a cidadania.
    Mas Danielli, que tem dupla nacionalidade, diz ter decidido ser um marine não apenas pelos benefícios, mas por motivos afetivos e até políticos. “Após cinco anos tendo ótimas oportunidades nos Estados Unidos, tendo meu filho nascido aqui, eu queria retribuir ao país... Além disso, estaria abrindo mais portas para a política, pois pretendo ser político nos EUA”, diz ele.
    Nascido em Chapecó, o marine se considera “joaçabense de coração” porque sua família é de Joaçaba, cidade do Meio Oeste Catarinense. Quando lá vivia, ele militava em uniões estudantis e se rotulava marxista-trotskista. “Pra mim, os EUA eram o vilão do mundo”. É, as pessoas mudam. Hoje ele não se sente vilão, pelo contrário: “Tenho ótimos momentos, como quando voltamos cansados das Missões Internacionais e centenas de pessoas estão nos aplaudindo no aeroporto, celebrando. Somos heróis para eles”.
    Danielli e seus colegas não são o único grupo de brasileiros capazes de entrar em combate por outra bandeira. A Legião Estrangeira Francesa, criada em 1831, é um dos destinos procurados por interessados na vida militar fora do país. O paulista Camilo Fausto da Silva, 45 anos, se aposentou da Legião em 2008. Em 18 anos de serviço, participou de missões em diversos países, como Somália, Ruanda, Macedônia, Kosovo e Guiana Francesa.
    Bem diferente do marine brasileiro, o motivo de Camilo ter sido recrutado pela Legião foi seu espírito de aventura. Com 22 anos, em viagem pela Europa, soube da existência da tropa e resolveu se inteirar sobre o assunto. “Na época, não saí do Brasil com essa intenção. Eu queria conhecer outros países, outras culturas. Quando cheguei em Portugal, vi uma reportagem sobre a Legião Estrangeira. Fui então para Paris, gostei  e fiquei”.
    Financeiramente, servir à Legião também foi compensador para Camilo, que em São Paulo trabalhava como ferramenteiro para uma empresa. “Se a pessoa se organizar, dá pra economizar porque o militar mora e come no quartel, tem assistência médica gratuita... E quando está em missão, o salário aumenta, podendo ficar entre 3.000 a 3.500 euros”, diz Camilo. Segundo a Legião Estrangeira, atualmente, o soldo inicial de um soldado é de 1295 euros, e, a partir de três anos de serviço, o legionário pode pedir a obtenção de cidadania francesa.
    É fato, os benefícios existem. Mas aí vem a pergunta que não quer calar: podendo ficar em paz no Brasil, não teve medo de entrar para uma tropa estrangeira? Camilo responde com outra pergunta: “Medo de quê? Ser policial no Rio de Janeiro, por exemplo, é muito mais perigoso do que servir à Legião Estrangeira”.  Segundo o ex-legionário, a imagem do senso comum de que a instituição é formada apenas por mercenários não é verdadeira. “As motivações para ingressar na Legião são diversas: dinheiro, espírito de aventura, desilusão amorosa, refúgio, tem de tudo”.
    Com relação ao número de brasileiros que fazem parte de suas tropas, a Legião, por meio de sua assessoria, disse à Revista de História que não tem como precisar. Mas Camilo arrisca uma estimativa: “Na época que fui recrutado, a Legião tinha cerca de 10 mil militares, sendo 40 brasileiros. Hoje, as tropas devem ter uns 500 brasileiros, de um total por volta de 8.500”.
    A falta de precisão quanto à quantidade de recrutados oriundos do Brasil é um fato recorrente em outras tropas fora do país. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, houve vários casos de teuto-brasileiros que lutaram pela Alemanha. O professor Dennison de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, dedicou-se exatamente a este tema no livro Os soldados brasileiros de Hitler, de 2008, e fez algumas conclusões a respeito: “Presumo que algumas centenas de brasileiros lutaram na Segunda Guerra Mundial sob a bandeira da Alemanha Nazista. Não se pode descartar até mesmo o fato de que indivíduos nascidos aqui tenham combatido entre si (...) embora até o momento inexistam evidências a respeito”. Hoje ele arrisca uma estimativa de brasileiros que tenham combatido no exército alemão, entre 700 e 900 pessoas, mas alerta: “qualquer estimativa é sempre um palpite”.

    No mesmo livro, o professor expõe depoimentos de cinco brasileiros que serviram ao III Reich. Entre eles está o do que ficou conhecido pelos colegas de guerra como Der Amerikaner (o americano), que, a pedido do próprio entrevistado, não teve sua identidade revelada, sendo chamado pelo autor pelo apelido, Guingo. Filho de alemães e nascido em São Paulo, ele viveu na terra natal toda infância e boa parte da adolescência. Foi para a Alemanha uma semana antes da guerra começar no dia 1º de setembro de 1939. Aos 14 anos, ele teria que ingressar na Juventude Hitlerista. Em 1943, já com idade para o alistamento, foi convocado para o serviço militar. Ele tentou alegar sua condição de brasileiro, mas nada feito: para a Alemanha, o sangue fala mais alto que a terra natal; se seus pais eram alemães, ele também era alemão. Em combate, chegou a se destacar, recebendo a Cruz de Ferro de Segunda Classe. Passada a guerra, ele voltou para o Brasil, onde viveu até 2008, quando faleceu.

    Entre os brasileiros-alemães há um que foi muito condecorado, como Egon Friedrich Kurt Albrecht, nascido em Curitiba em 1918 e morto em combate em 1944. Como piloto de caça, ele recebeu o Troféu de Honra da Luftwaffe (a Força Aérea alemã), a Cruz Germânica em Ouro e a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro – dos 3,4 milhões de combatentes da Força Aérea, apenas 1.785 conseguiram este reconhecimento.
    Curitiba também gerou outro brasileiro condecorado, desta vez, lutando do lado dos Aliados. Era o franco-brasileiro Pierre Closterman (1921-2006). Filho de um diplomata francês, serviu na Força Aérea Real britânica durante a Segunda Guerra Mundial e tornou-se o primeiro Ás da França. Nesta conquista, o Brasil tem um grande mérito: foi no Aeroclube Brasileiro que ele obteve seu brevet de piloto. Closterman, que também era jornalista, tendo colaborado para o Correio da Manhã, escreveu um livro que se tornou referência para futuros pilotos, O grande circo (1948), que conta detalhes dos combates aéreos que viveu. Além das homenagens francesas recebidas por sua atuação na guerra, ele ainda foi agraciado, em 2004, pela Força Aérea Brasileira com uma condecoração.
    Em matéria de dupla nacionalidade, como se vê, as chances de ir para uma guerra aumentam. Os israelenses que o digam. Toda pessoa que tem ascendência judaica até o terceiro grau – ou seja, se tiver um dos bisavós judeu – pode reivindicar a nacionalidade de Israel, onde o serviço militar é obrigatório para homens e mulheres.  O cônsul-geral de Israel em São Paulo, Illan Sztulman, sabe bem destes trâmites. Não só por ser uma autoridade diplomática, mas por ele mesmo ser, ao mesmo tempo, israelense e brasileiro, de São Paulo.
    Sztulman viveu na terra da garoa até os 18 anos. De 1978 a 1982, estava ativo no exército israelense. “Estive na primeira Guerra do Líbano (1982)”, lembra ele, que percebe no serviço militar um lado positivo. “A guerra não é agradável pra ninguém, mas aprende-se muito no exército. Aprende-se, por exemplo, que seus limites são maiores do que você imagina, do ponto de vista físico e emocional”.
    Quanto ao número de brasileiros que já ingressaram no exército israelense, o cônsul diz não ser possível ter uma estatística precisa. O motivo é simples e se repete nas consultas a outros órgãos da diplomacia: “No exército ninguém se importa muito com sua outra nacionalidade”. Está explicado.

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