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BRASIL - Cerca de 700 acadêmicos norte-americanos pesquisam o Brasil, dedicando-se a assuntos como identidade racial, cultura popular, escravidão e jogo do bicho. Mas nem sempre foi assim: a produção dos brasilianistas – especialistas dedicados a estudos sobre o país – só ganhou força no início dos anos 1970.


  • Enquanto a ditadura militar brasileira aumentava a repressão com o Ato Institucional nº 5 (AI-5), de 1968, uma nova geração de estudiosos americanos reagia com uma série de campanhas nos Estados Unidos. A primeira iniciativa, contra a aposentadoria compulsória de professores brasileiros e contra a tortura de presos políticos, foi liderada pelo historiador Ralph Della Cava e pelo pastor metodista Brad Tyson.  Della Cava escreveu um livro sobre o fenômeno do padre Cícero, Milagre em Juazeiro (1977), e era professor da História do Brasil em Queens College, Nova York.  Brad Tyson (1927-2003) viveu no Brasil de 1962 a 1966, quando foi expulso do país por se opor à ditadura. Ele lecionava Ciências Políticas na American University, em Washington, e coordenava contatos entre opositores brasileiros do regime e membros do Congresso americano que queriam cortar a ajuda econômica e militar à ditadura.

    Durante dez anos, Tyson, Della Cava e seus aliados se mobilizaram, organizando abaixo-assinados e conferências com adversários da ditadura, como o deputado cassado Márcio Moreira Alves (1936-2009) e o presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), Jean Marc Von der Weid. Dirigentes religiosos, líderes de movimentos pelos direitos civis, congressistas, intelectuais e alguns brasileiros formaram uma frente única para manifestar repúdio à ajuda americana ao regime militar. Entre os participantes desse grupo estavam acadêmicos como Thomas Skidmore, professor de História da América Latina na Universidade de Wisconsin e autor de Brasil: de Getúlio a Castelo (1975), uma análise histórica sobre o período de 1930 a 1964.

    Na segunda reunião nacional da Associação de Estudos Latino-Americanos, realizada em Washington em abril de 1970, Skidmore e o deputado Márcio Moreira Alves divulgaram um documento de repúdio ao governo militar e à tortura, no qual diziam protestar “vigorosamente contra as violações da liberdade acadêmica e dos direitos civis de professores, estudantes e intelectuais que ocorrem atualmente no Brasil”.

    Mais tarde, Skidmore, junto com outros historiadores, escreveu uma carta, publicada no The New York Times, denunciando a prisão do seu colega brasileiro Caio Prado Júnior (1907-1990), condenado a três anos de prisão por violar a Lei de Segurança Nacional.  “Duvidamos que alguma vez na História do Brasil tenha havido tratamento mais sistemático, mais amplo e mais desumano de dissidentes políticos”, dizia a carta. Nos meses seguintes, 97 latino-americanistas de universidades de todo o país assinaram “Um protesto contra o governo brasileiro”. Era uma demonstração de apoio a Caio Prado Júnior.  Embora ele tivesse rompido com o Partido Comunista Brasileiro na década de 1960, os setores de esquerda o consideravam um importante intelectual marxista.

    Nos final dos anos 1960, o governo americano considerava qualquer iniciativa reformista na América Latina uma via para o comunismo. Paralelamente a isso, o movimento pelos direitos civis e contra a Guerra do Vietnã (1959-1975) levou uma geração de estudantes a questionar a política internacional norte-americana e a Guerra Fria.

    Quando subiu ao poder, o presidente americano John Kennedy (1961-1963) deu o empurrão que faltava aos estudos latino-americanos. Ele aprovou fundos para treinar especialistas de várias áreas, como política e cultura, estabelecendo programas que incentivassem estudantes de pós-graduação a viajar para os países da América Latina. Assim, esperava-se que esses pesquisadores escrevessem livros e contribuíssem para educar os leitores dos EUA a respeito de seus vizinhos do Sul.

    Essa política fazia parte da “Aliança para o Progresso”, uma reação à Revolução Cubana (1959), que derrubou o general Fulgêncio Batista e levou os comunistas ao poder sob a liderança de Fidel Castro. O projeto oferecia ajuda econômica e militar para evitar outros processos revolucionários no continente, o bastante para causar uma crise em Washington. Por isso, é possível dizer que os estudos brasileiros nos Estados Unidos se devem, em grande parte, à Revolução Cubana. No ano anterior a ela, o governo do presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961) havia proposto a Operação Pan-americana como um programa de auxílio multilateral para o desenvolvimento econômico da América Latina, que incluía uma reforma agrária moderada e ajuda econômica à região. Mas o governo Eisenhower (1953-1960) ignorou a proposta, preferindo investir no comércio.

    O sucessor de Juscelino, Jânio Quadros (1917-1992), adotou uma política externa independente em 1961. Acabou deixando os americanos temerosos de que o Brasil escapasse de sua área de influência. A preocupação da gestão Kennedy, que era liberal e anticomunista, aumentou com o governo de João Goulart (1961-1964). Em 1962, os EUA garantiram apoio às conspirações militares para derrubar Jango. Às vésperas do golpe, o embaixador norte-americano no Brasil, Lincoln Gordon (1913-2009), por meio da Operação Brother Sam, pediu apoio à Casa Branca para dar suporte aos golpistas. Um porta-aviões, acompanhado por seis destróieres de apoio e quatro navios-tanque, zarpou em direção a águas brasileiras, e deveria ter chegado em 11 de abril. Outros navios levavam suprimentos de óleo e munição para a força-tarefa. O Estado-Maior ordenou o transporte aéreo de 250 canhões para Porto Rico e enviou 110 toneladas de armas e munição à Base McGuire, em Nova Jersey, para serem levadas ao Brasil.

    Naquela época, a maioria dos americanos tomava conhecimento da América Latina por meio de documentários sobre a ameaça comunista em Cuba e artigos de jornal sobre a suposta rebelião de milhões de camponeses brasileiros no Nordeste, organizados nas Ligas Camponesas. Mas o quadro já começava a mudar. Surgiam materiais produzidos para uma classe média interessada em conhecer os problemas da América Latina. O Foreign Policy Association-World Affairs Center, um centro educativo não governamental em Washington, ofereceu aos seus participantes a oportunidade de estudar sobre países estrangeiros por meio de grupos de discussão, organizados em casas particulares. Em 1962, a instituição editou um panfleto de 12 páginas, intitulado “Brasil na encruzilhada” (“Brazil at the Crossroads”), que afirmava: “A renúncia do presidente Jânio Quadros levou o Brasil à beira de uma guerra civil e aumentou o medo do comunismo, do castrismo e do antiamericanismo”.  
     
     No mesmo folheto, o World Affairs Center sugeriu a tradução para o inglês dos clássicos Os Sertões (1902), de Euclides da Cunha, Casa-Grande & Senzala (1933), de Gilberto Freyre, e O negro brasileiro (1934), de Arthur Ramos. Supõe-se que o interesse dos norte-americanos por textos sobre raça refletisse o momento em que o movimento pelos direitos civis dos negros estadunidenses estava no auge. Nessa época, eram pouquíssimos os livros em inglês sobre o Brasil.

    Em 1963, o sociólogo T. Lynn Smith (1903-1976) escreveu Brazil: people and institutions, mesmo ano em que Wagley publicara An introduction to Brazil. Mas os dois livros ainda apresentavam uma visão geral sobre a História e a cultura brasileiras. Nenhuma dessas obras oferecia uma análise que ajudasse um público mal informado a compreender a natureza do nacionalismo brasileiro, as aspirações dos camponeses sem terra e as esperanças da juventude brasileira.

    A partir dos anos 1970, o trabalho desses estudiosos estrangeiros que se debruçaram sobre o Brasil não parou mais. Na última década, alguns desses especialistas se destacaram com contribuições sobre o regime militar. Com Diálogos na sombra: bispos e militares, tortura e justiça social na ditadura (2001), o professor Kenneth Serbin, da Universidade de San Diego, examinou as relações entre setores da Igreja Católica e os militares durante o governo Médici (1969-1974).

     Outra obra significativa foi elaborada por Christopher Dunn, professor de Estudos Culturais e Literários Brasileiros da Universidade de Tulane. No livro Brutalidade jardim: a Tropicália e o surgimento da contracultura brasileira (2008), ele analisa as múltiplas influências recebidas pelo Tropicalismo e a forma como seus integrantes questionaram a censura, o ufanismo e o nacionalismo que a ditadura tentou implantar no país.

    Hoje, a quantidade de obras escritas por americanos publicadas em português é muito maior que as feitas por brasileiros e traduzidas para o inglês. O motivo dessa diferença é o legado cultural brasileiro, que supervaloriza o olhar estrangeiro. Resta saber se esse cenário vai mudar.

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