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Rafael Borges |

No início deste mês de março tive o privilégio de passar dez dias em Havana, Cuba, conhecendo a Ilha cuja realidade há décadas permeia o sonho de jovens e adultos militantes do projeto socialista. Não foi possível em apenas dez dias descortinar e compreender este país repleto de peculiaridades, terra de histórias e personagens (vivos e mortos) quase mitológicos e um dos palcos principais dos embates geopolíticos mais relevantes havidos na segunda metade do século passado. Cuba não é para amadores: sua paisagem – econômica, social, política e cultural – provoca um nó górdio em nossas cabeças capitalistas/ocidentais, formatadas na perspectiva da acumulação, do consumo e do individualismo. Os chavões do globo-golpismo não dão conta de descrevê-la (lamento, Bonner). É preciso, antes de qualquer coisa, desgarrar-nos das premissas e dos preconceitos construídos pela propaganda política e comercial que nunca toleraram a audácia cubana. Como assim vocês alimentam, educam e cuidam de onze milhões de habitantes sem acessar a economia de mercado e apesar do embargo norte-americano? Tentemos dialogar com duas respostas prontas que circulam por aí.










Cuba resiste porque é uma ditadura e todos fazem o que o governo manda. Mentira. A esta conclusão equivocada chegam todos aqueles que olham para o sistema político cubano a partir dos modelos de democracia liberal majoritariamente experimentados pelos países capitalistas ocidentais, em que as eleições servem a interesses econômicos e financeiros de grupos específicos, estes sem o menor pudor de manipular e reverter a vontade popular manifestada pelas urnas (ou alguém ainda defende que não foi golpe?), quando isso lhes parece conveniente. A democracia cubana guarda relação direta e intensa com a manutenção e a defesa do processo revolucionário iniciado em 1959. O sistema do Poder Popular, único existente no país, comporta a existência de diversas esferas de deliberação (Assembléia Nacional, Assembleias Provinciais, Assembleias Municipais, o Conselho Popular e a Circunscrição Eleitoral), integradas por pessoas eleitas, independentemente de serem filiadas ao Partido Comunista. Soaria ingênuo acreditar que uma ilha caribenha de onze milhões de habitantes, a menos de cem quilômetros do centro do capitalismo mundial, resistiria bravamente a todas as provações que o mundo lhe submeteu sem apoio popular...

Cuba resiste porque paga o preço de sua intransigência com pobreza. Meia verdade. Se você entender pobreza como ausência de televisores de plasma, smartphones de última geração e automóveis bem equipados, a impressão está correta. A capacidade de consumo dos habitantes da Ilha, exceto para aqueles que acessam a economia turística (o peso cubano convertido), é limitadíssima e está quase restrita aos bens de primeira necessidade. Aliás, é bem possível que a expansão quase descontrolada da atividade turística acirre as desigualdades internas e pouco a pouco acabe descaracterizando o projeto revolucionário original. Oxalá os cubanos (e só eles!) encontrem um caminho criativo de auto-superação. Mas se você entender pobreza como ausência de serviços públicos essenciais, indignidade e submissão de classe, a impressão está errada. As famílias dispõem de serviços de luz, água, gás, telefone e algumas até internet (discada e sem bloqueio de conteúdo) por preços razoáveis e acessíveis. Ostenta índices de desemprego desprezíveis e dados socioeconômicos invejáveis.

Cuba ainda chama a atenção por sua beleza natural e arquitetônica muitíssimo bem conservada, principalmente em Habana Vieja, mas também pela qualidade do seu povo. Um povo que erradicou o analfabetismo ainda na década de sessenta, que criou tratamentos médico-hospitalares referenciais para o mundo, que exporta profissionais de saúde e é solidário com os países miseráveis do continente (vide Haiti), que combateu o poderio bélico e econômico estadunidense sem se rebaixar e que desenvolveu um modelo de vida diferenciado e irritantemente anticapitalista. Cuba não cabe na nossa cabeça. Deixemo-la resistir. Deixemo-la vencer seus próprios desafios. Viva Che, Camilo e Fidel. E fora Temer.

P.S: Dedico este artigo despretensioso a Miriam e sua família – cidadãos do mundo, cubanos, moradores de Havana, revolucionários de seu tempo, gente digna, feliz e querida. Obrigado por existirem e por preservarem esta Ilha, mágica, rebelde e intrigante, tudo na mesma medida.

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