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Texto: Alessandro Lo-Bianco
Fotos: Claudia Ruiz 


Poeta, colunista e jornalista; das folhas de revistas e papeis de jornal à publicação de livros carregados com o melhor da poesia contemporânea. No trânsito entre a escrita e o teatro, o escritor Christovam de Chevalier entrega dois importantes projetos musicais aos palcos: “Nara – A menina disse coisa”, musical biográfico que já está em cartaz e retrata a vida da cantora Nara Leão entre os anos de 1942 e 1989, e um novo projeto que ainda permanece em segredo: “É um musical, não é biográfico, mas são canções de uma das maiores cantoras pops da atualidade”, adiantou.


Foto: Claudia Ruiz

Seu último livro - “No escuro da noite em claro” - foi elogiado e enaltecido por ninguém menos que o poeta Ferreira Gullar, que também assinou a orelha da publicação. Já o musical sobre a vida da Nara Leão mal estreou e foi apontado como um espetáculo que “passa a limpo a carreira da cantora”. 
Com a mesma espontaneidade e inteligência que compõe seu escopo artístico e multifacetado, o escritor recebeu o Entrevistando em sua casa, no Rio de Janeiro. Durante o descontraído bate-papo, contou como trabalha e divide sua vida entre o jornalismo, a literatura e a Beta, sua gata de estimação, que acabou posando para uma sessão de fotos no término da entrevista. Entre trabalhos e recordações, também passou pela família para apontar suas referências ao ingressar no jornalismo. Filho de Scarlet Moon de Chevalier - importante jornalista, escritora e atriz – ele viu a mãe dividir bancada com Nelson Motta, quando os dois promoveram uma abertura política na televisão nacional iniciando o talk-show "Noites Cariocas" de uma forma ousada e única na vida dos brasileiros.
De “Um livro sem título”, primeira publicação lançada aos 22 anos, até o segundo livro - “No escuro da noite em claro” - Christovam publicou poemas nas revistas “Rua” (Unicamp), “Poesia Sempre” (Biblioteca Nacional) e nas antologias “É agora como nunca” (Cia das Letras) - organizada por Adriana Calcanhoto - além do “Poesia Virtual 4”, que também reúne textos de diferentes artistas.
Antes de trabalhar na redação do Jornal O Globo, onde assina a coluna semanal “Parada Obrigatória” desde 2013, passou também pela redação do Jornal do Brasil e colaborou com revistas como CQ, Joyce Pascowitch, entre outras. Confira a entrevista!
Foto: Claudia Ruiz

Conte como a escrita começou se  manifestar em sua vida...
A literatura entrou muito cedo na minha vida. Sempre ganhei livros e era uma coisa que me entretinha muito. Foi dessa forma que a poesia fez parte da minha vida; desde criança eu lia muito, gostava de ler.
Você lembra do primeiro livro que leu?
Meu primeiro livro de poesias foi “Ou isto ou aquilo”, da Cecília Meireles. Anos depois, fui reler este livro e a poesia tem isso: cada vez que eu lia os textos, eles ganhavam novas intepretações.
Você teve essa vocação para escrita desde os tempos do colégio, era consciente que iria trabalhar com isso?
Estudei no colégio Centro Educacional da Lagoa. Toda sexta-feira tinha aula de redação. Lembro que escrevia um poema numa sexta-feira, e na outra escrevia uma prosa, eu ficava alternando. Tinha uns 13 anos. Uma vez um colega começou a ler o que eu escrevia e disse: “você é um poeta, cara!” Mas eu respondia: “que isso, cara, poeta? Está maluco?
E aí você escreve o seu primeiro livro...
Eu sempre gostei de escrever. Fiquei um tempo sem mostrar para as pessoas o que eu fazia. Eu escrevia só para mim.  Até o dia que eu tomei coragem e pensei: quer saber, vou começar a publicar mesmo essas maluquices.

Maluquices soltas em cadernos, pedaços de papel em pastas, guardanapos, essas coisas? Outros tempos, sem computador...
Sim, eu guardava tudo. Escrevia muito em caderno. Hoje, com certeza, escrevo muito mais pelo computador do que no papel. Minha primeira publicação então foi um apanhado das coisas que eu tinha, e se chamou “Um livro sem título”.
E depois, em 2016, veio o segundo livro, já tão bem avaliado pela crítica, “No escuro da noite em claro”...
Eu considero aí, realmente, o meu livro de estreia...
Foram 18 anos...
 Eu levei 18 anos entre o primeiro e o segundo livro, mas isso não quer dizer que eu deixei de escrever.
E por que considera só o segundo livro, de fato, sua estreia como escritor?
Os primeiros textos eram muitos confessionais. Hoje, com o passar do tempo, eu acho que a poesia não precisa ser tão confessional.
Mas se expor um pouco não acaba sendo algo inerente do escritor, de quem se expressa por meio da escrita?
Sim, mas pode ter um limite. O escritor pode fazer isso sem se expor tanto, sem abrir tanto a sua vida. Os textos eram verborrágicos – e agradeço por ter perdido essa verborragia (risos) – pois era outro poeta.
E o poeta de agora?
Esse poeta de agora é mais conciso. Conciso como Cacaso (Antônio Carlos Brito, professor, letrista e poeta brasileiro) ou Leminski (escritor, poeta, tradutor e professor brasileiro). Com apenas quatro haicais falavam tudo que precisavam.
Como você se enquadra? Você é aquele poeta mais métrico, ou você se permite ser menos tradicional? Como funciona essa estrutura para você?
Eu não sou um poeta tradicionalista e ainda morro de inveja dos colegas que dizem que “a poesia vem com uma inspiração do nada, que chega de repente”. A inspiração dentro de qualquer escrita, assim como muitos segmentos na comunicação, ela é praticada. Eu trabalho com ideias. Vou anotando tudo em bloquinho, celular, computador, e vou amarrando e integrando tudo até entender o que realmente eu estou querendo escrever.
Foto: Claudia Ruiz

Foi bastante reflexivo o segundo livro, com temas profundos...
Isso. Neste segundo livro os textos começam a se casar. Num poema eu falo da morte, no outro dedico à minha mãe. Falo também sobre o amor numa página e na outra escrevo sobre a perda deste amor. Há também os meta-poemas, tudo organizado.
E agora você está preparando o terceiro livro?
Sim, que virá com uma série de poemas, todos ligados ao mar. O nome é “Marulho”, como o barulho do mar. O mar aqui aparece como uma metáfora de um amor que cumpriu o seu ciclo. Tem também uma série de poemas que vai se chamar “Poemas Grito”, poemas curtos e sem títulos, e depois poemas homenageando pessoas, como Fernanda Fernandes e Maria Bethânia, por exemplo...
Tem um livro da Bethânea em sua sala, você gosta bastante dela?
É uma das minhas cantoras preferidas.
E quem é o escritor?
Eu tenho loucura pelo Ferreira Gullart e pela Neide Arcanjo. Acho que ela está muito esquecida e é uma poeta que precisa ser mais estudada, mais depurada, mais conhecida; uma poeta que deveria estar hoje reconhecida em uma academia.
O que faz parte da sua cabeceira na literatura estrangeira?
Vou muito para literatura latino-americana, mas gosto também da literatura europeia. E como sugestão gosto muito do Mário Vargas Llosa e da Virgínia Woolf. Mas tem muita coisa bacana.
E como você entrou nos musicais?
Essa profissão de jornalista está passando por uma série de transformações. E tem um cara que me inspira muito que é o Nelson Motta. Justamente por ser escritor, músico, compositor, escrever teatro, tudo. Eu não me vejo trabalhando, engessado apenas com o jornalismo, em um único segmento nos próximos 20 anos. Eu sou um cara que lida com ideias. E sobre a ideia do musical, por exemplo, tenho que citar a Aline, que viveu a Nara. Eu já tinha trabalhado várias vezes com ela em outros projetos, mas sempre dos outros; e ela é uma ótima atriz, uma comediante nata. Uma vez, perguntei quando ela iria trabalhar para ela mesma. E ela respondeu que queria fazer algo com musical, mas que precisava de uma personagem; então eu dei a ideia da Nara.
E por que a Nara?
A Nara está esquecida. Ela precisa ser lembrada. E tem um temperamento que acho que se adequada ao perfil da Aline.
Em quanto tempo vocês levantaram o musical?
Foi tudo muito rápido. Aline convidou o Hugo Sukman e o Marcos França para fazerem o texto, que ficou primoroso. O Teatro Ipanema acenou com uma proposta de palco super rápida também.
E o que vem de novidade após esse musical?
Vou escrever um musical, e só posso adiantar que não será biográfico, mas vão ser canções de uma das maiores cantoras brasileiras pops da atualidade. Vou começar a trabalhar neste projeto este ano e ele será lançado no ano que vem.
O musical da Nara está em cartaz hoje, o que você gostaria de dizer sobre ele...
Como disse, sou um cara que trabalha com ideias. E se eu já tinha antes um carinho pela Aline, agora não tenho como expressar o que sinto. Digo isso porque já criei programa de televisão, já criei discos, já dei várias ideias de projetos para vários artistas e esses projetos estão todos engavetados. E a Aline foi lá, pegou essa minha ideia e levou adiante; realizou. Isso, o mérito é dela. Acho engraçado o mérito recair nas minhas costas como idealizador.
Foto: Claudia Ruiz

Mas não é bom ser reconhecido, de fato, como o idealizador do musical?
É uma ideia que poderia ter ficado na gaveta também e não ficou. Por isso, digo e enalteço que o mérito também está na Aline. Ela foi lá, comprou a ideia e realizamos.
E sua trajetória no jornalismo? São anos como colunista...
Muito tempo. Eu tive mãe e pai jornalistas. Eu queria fugir disso, porque eu não queria ser comparado. Não queria ser como filhos de cantores que começavam a cantar e eram comparados com os pais.
Sua mãe teve uma importância muito grande como jornalista, em um contexto difícil que o país enfrentava...
A minha mãe foi uma mulher que inovou com Nelson Motta a televisão brasileira. Quando a gente entrava na temporada de abertura política eles fizeram um programa de entrevistas mais próximo do que conhecemos hoje como talk-show. Não tinha música, não tinha banda no cenário, mas era um programa que tinha liberdade de abordagem e discussão. Foi o primeiro programa da televisão brasileira que ousou colocar uma Gabriela Leite, criadora da Daspu, a falar e ter voz naquele momento, a falar da prostituição. Foi a primeira entrevista que a Rogéria deu como transexual. Assim como foi também a primeira entrevista que a Jane de Castro deu em um programa de televisão. Ela e o Nelsinho foram inovadores neste sentido com o “Noites Cariocas”.
E como você iniciou o caminho nas redações?
Minha primeira grande redação foi o Jornal do Brasil. Mas, na época, eu achava um trabalho tolo e supérfluo fazer uma coluna. Eu tinha uma visão de que o colunismo era um trabalho menor dentro do jornalismo. Vários dos colunistas achacavam personagens, ou para promover ou omitir um fato comprometedor. Então eu achava isso um pouco marginal. Tinha aquele glamour em ser colunista, mas, no meu entender, era uma coisa marginalizada. Mas aí comecei a fazer colunas no JB, onde fui também subeditor e interino. De lá fui para o jornal O Globo, onde tive oportunidade de trabalhar com minha mãe no finzinho da doença dela.
E como você se organiza para escrever nesse mundo de ideias multifacetado? Você é um cara organizado? Como faz isso?
Sou muito organizado. Tenho que ter horários. De manhã trabalho num projeto; à tarde faço assessoria de imprensa e a coluna. Claro que tenho um ou outro trabalho que atropela alguns planos, mas consigo me organizar bem nessa multiplicidade de coisas; faço isso com bastante prazer. Agora, na época da Copa, vou ficar mais tranquilo para fechar este terceiro livro.
Foto: Claudia Ruiz

Qual dica você dá para quem está começando hoje no jornalismo. Você vivenciou a redação em duas épocas completamente diferentes...
Acho que o papel vai acabar. Não sei se dura mais cinco ou dez anos, mas a profissão não vai acabar. As pessoas vão ter essa cultura de ler notícias pelo computador, celular, mas o que me entristece nesta profissão hoje é que ela está muito mal valorizada e remunerada. Na verdade sempre foi. Mas hoje está ainda pior. Quando vejo um jovem dizer que quer trabalhar como jornalista, brinco e digo: “que coragem” (risos). Eu vou dar palestras em universidades e brinco com essa coisa do salário, de que ainda dá tempo de fugir do barco. Mas, por trás de toda essa brincadeira - que não deixa de ser um desabafo - a dica que dou para quem deseja enveredar por este caminho é que tenha muita paixão e devoção pelo trabalho, que tenha muita certeza sobre o que deseja fazer.
Você já teve problemas com isso? Dificuldades para fazer essa escolha?
Sim, e foi um dos problemas que tive em casa. Falavam para eu ganhar dinheiro e fazer marketing. E eu fui fazer jornalismo. Bati o pé e disse que ia fazer aquilo que eu gostava de fazer.
Você considera então o jornalismo a sua primeira profissão?
Com certeza. Brinco que aqui mora o jornalista e o poeta. O jornalista paga as contas, e espero que o poeta ajude um dia (risos). Outro dia, por exemplo, ganhei R$ 500 pelo uso de um poema num livro didático; pensei: nossa, que coisa! (risos) Outra vez, fui ler um poema e ganhei R$ 200 pela leitura. Pensei: como isso aconteceu, que milagre! Espero o dia que o poeta vá bancar as contas, ou pelo menos dividir com o jornalista.
E para quem deseja entrar na literatura?
Tem uma coisa que me assusta que é o seguinte: eu gosto de escrever porque eu gosto de ler. Antes de qualquer coisa eu gosto de ler. Acho que tem muita gente escrevendo hoje e pouca gente lendo. E aí é uma gente que acha que está descobrindo a pólvora e essa pólvora já está ó, para lá de descoberta. Aí aparece essa coisa de que alguém inventou algum estilo, e isso já existe faz tempo. Isso é algo que me aflige. Tem muita gente escrevendo sem estofo e pouca gente lendo.
Foto: Claudia Ruiz

A internet pode estar retirando o romance, por exemplo, do prazer da leitura?
 A poesia está mais visível com a internet, mas é preciso atentar muito para uma questão bastante séria, não só na literatura como também na música: essa geração nova cresce escutando e consumindo música pelas plataformas do celular. Observe como é diferente: quando adolescente eu lia encarte dos cds, dos agradecimentos; lia para entender o motivo daquelas pessoas estarem reunidas ali, para saber por que determinado artista resolveu agradecer aquelas pessoas. Lia os nomes da equipe de produção, tudo isso que não tem mais. Então é preciso resgatar isso, justamente porque vem uma garotada achando que está descobrindo a pólvora, mas ela já vem de muito tempo.
O que você quer fazer que ainda não começou?
Sem medo de comparação, eu quero ter um programa de entrevistas. Eu adoro conversar. Um programa de entrevistas sem firulas e enrolação, o diálogo mesmo, bruto. Tem muito espetáculo hoje; vivemos esse tempo. Eu quero voltar esse estilo como a Marília Gabriela fazia, como a Leda Nagle fez muito; resgatar esse tipo de formato. Vejo também as conversas hoje na televisão muito informais, e é importante tirar o entrevistado da zona de conforto. Isso é uma tarefa do jornalismo. Não temos essa cultura, mas lá fora isso é muito comum. Talvez pela cultura que temos de não pagar o entrevistado, e que ocorre diferente lá fora. Talvez por não pagar, a entrevista se torna aquele acordo de cavalheiros, e aí nada é remexido como precisa ser. Acaba sendo uma troca de favores.  
E a Beta? Como ela apareceu? Quando chegamos ela estava tímida, mas agora está acompanhando a entrevista aqui do seu lado.
Sou apaixonado por bichos. A Beta surge na minha vida em um momento de separação, quando fui pela primeira vez morar sozinho. Quando sai de casa fui dividir apartamento com amigo, mas nunca havia morado sozinho. De 2014 pra cá eu moro sozinho, mas acho fundamental ter essa troca com um bicho sim. Meu trabalho é solitário, a vida de escritor é solitária. Mas eles sentem e te mostram muitas coisas nessas horas, percebem, e é uma troca bacana.

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